Todos nós já ouvimos o ditado: “o pior cego é aquele que não quer ver”. Em nossa experiência, o autoengano é uma força silenciosa, mas poderosa, que pode influenciar escolhas, relações, sonhos e até o próprio sentido da vida. Reconhecer o autoengano no dia a dia exige atenção, humildade e uma disposição real de olhar para nós mesmos sem filtros de conveniência.
O que é autoengano e por que ele acontece?
Autoengano é o processo pelo qual uma pessoa, de modo consciente ou inconsciente, distorce a própria percepção da realidade para fugir de verdades desconfortáveis. Não se trata de uma mentira pura e simples, mas de mecanismos internos sofisticados que visam poupar sofrimento, preservar autoestima ou manter uma imagem positiva perante os outros.
O autoengano acontece quando protegemos nossas emoções da dor, da vergonha ou da frustração, ainda que, para isso, mantenhamos a ilusão sobre fatos, sentimentos ou capacidades.
Ver o que queremos não muda o que é real.
Como o autoengano se manifesta no cotidiano?
Muitas vezes, percebemos o autoengano em situações banais, pequenas escolhas ou pensamentos automáticos. Ele se manifesta em vários níveis e intensidades. Eis alguns exemplos claros:
- Ignorar sinais de um relacionamento desfuncional por medo da solidão.
- Justificar hábitos prejudiciais dizendo que “tudo está sob controle”.
- Atribuir a terceiros a culpa de nossos fracassos, negando a própria responsabilidade.
- Apostar em cenários improváveis por apego à esperança, mesmo diante de evidências contrárias.
- Evitar conversas difíceis porque “não é o momento”, mascarando a dificuldade de enfrentamento.
Quando paramos para observar, notamos o quanto o autoengano pode estar presente nos detalhes: desde a escolha de não olhar para o extrato bancário até interpretações otimistas sobre decisões impulsivas.
Por que é tão difícil reconhecer o autoengano?
O autoengano costuma ser sutil porque parte de processos emocionais profundos. Muitas vezes, construímos uma narrativa interna que nos protege de dores, falhas ou incertezas. Mas, ao fazermos isso, pagamos um preço alto: deixamos de agir com autenticidade e perdemos oportunidades de crescimento.
Em nossos estudos, identificamos alguns fatores que tornam o autoengano difícil de notar:
- O desejo de aprovação social, que nos faz moldar relatos e percepções.
- O medo de fracassar e de confrontar o próprio limite.
- A tendência de racionalizar comportamentos e justificar decisões.
- A dificuldade de lidar com emoções negativas, optando por camuflá-las.

Como identificar sinais de autoengano em nós mesmos?
Reconhecer o autoengano exige um olhar atento e honesto para nossas próprias atitudes. Nem sempre é fácil admitir, mas com prática, alguns sinais ficam mais claros. Sugerimos observar os seguintes pontos:
- Crenças inflexíveis: Quando algo não pode ser questionado dentro de nossos próprios parâmetros, é possível que seja fruto de autoengano. Nos apegamos tanto à ideia que evitamos qualquer dado que a contrarie.
- Justificativas excessivas: Se sempre sentimos necessidade de explicar tudo para nós mesmos ou para os outros, talvez estejamos tentando sustentar uma percepção que, na verdade, já não se apoia na realidade.
- Distorção de lembranças: Quando recontamos histórias adaptadas de acordo com a narrativa que queremos acreditar, ignorando fatos contrários ou mudando detalhes importantes.
- Evasão de conversas sinceras: Deixamos de tratar de certos temas porque eles nos conectariam com verdades incômodas.
- Desconforto ao receber feedback honesto: Sentimos raiva, rejeição ou racionalização imediata diante de opiniões que nos confrontam.
Se nos flagremos recorrendo a essas atitudes frequentemente, vale questionar: o que estamos tentando proteger com tanto empenho?
Ferramentas práticas para desmascarar o autoengano
Não basta querer enxergar: é preciso criar um ambiente de autoconhecimento. Ao longo de nossas práticas, descobrimos ferramentas que favorecem esse processo:
- Diário de sentimentos: Escrever diariamente sobre o que sentimos, sem filtro ou julgamento, permite observar padrões e identificar inconsistências em nossas narrativas internas.
- Autodiálogo honesto: Conversar consigo mesmo a partir de diferentes perspectivas, exercitando perguntar: “e se eu estiver errado?” ou “o que não quero enxergar aqui?”.
- Busca por feedback confiável: Pedir opiniões sinceras a pessoas de confiança, preparadas para nos oferecer visões críticas e elogios na medida certa.
- Pausa e meditação: Reservar momentos para silenciar estímulos externos e observar pensamentos automáticos. A quietude revela sentimentos que tentamos ignorar.
- Exercício de realidade: Confrontar fatos e dados concretos sempre que houver dúvida ou desconforto, buscando distanciar-se do viés emocional.
Chamamos atenção para um detalhe: a verdade pode incomodar no início, mas é libertadora a longo prazo.

A importância do autoquestionamento
Em nossos atendimentos e pesquisas, percebemos que o autoquestionamento sincero é uma das práticas mais eficazes para driblar o autoengano. Ele não exige julgamentos severos, mas sim curiosidade genuína sobre nossas próprias motivações.
- “Qual a evidência disso que penso?”
- “Essa crença me aproxima ou me afasta do que desejo viver?”
- “Estou tomando esta decisão por medo ou por desejo?”
Perguntas poderosas, feitas no momento certo, têm o potencial de romper camadas de ilusão e nos aproximar de escolhas mais conscientes.
Conclusão
Reconhecer o autoengano no dia a dia não nos torna frágeis, mas sim corajosos diante de nossa própria humanidade. Quando olhamos sinceramente para nossos padrões, aprendemos mais sobre nossos desejos, nossos medos e nosso potencial de transformação. O exercício contínuo do autoquestionamento e a escolha de lidar com a verdade, por mais difícil que pareça, criam as condições para uma vida mais íntegra e alinhada ao que realmente faz sentido para cada um de nós.
A jornada não termina com o primeiro passo. Mas, ao dar esse passo, criamos espaço para a autenticidade florescer em nossas ações cotidianas.
Perguntas frequentes
O que é autoengano no dia a dia?
Autoengano no dia a dia é quando distorcemos nossa percepção para evitar verdades dolorosas ou inconvenientes, geralmente de forma inconsciente. Ele pode acontecer em decisões simples ou em temas profundos e interfere em como enxergamos a nós mesmos e ao nosso entorno.
Como identificar o autoengano em mim?
Observar padrões de negação, justificativas constantes, desconforto com feedbacks honestos e a tendência a evitar conversas difíceis são indicadores de autoengano. Refletir honestamente sobre nossos sentimentos e buscar fatos concretos também ajuda a perceber esse movimento.
Quais os sinais mais comuns de autoengano?
Entre os sinais mais comuns estão: não admitir erros, culpar os outros por situações recorrentes, esconder emoções negativas, adaptar lembranças para favorecer a própria imagem e demonstrar resistência em aceitar opiniões divergentes.
Autoengano pode prejudicar minha vida?
Sim, pois dificulta o desenvolvimento pessoal, prejudica relações e pode levar a decisões que nos afastam de nossos verdadeiros interesses e desejos. Além disso, impede o aprendizado com as próprias experiências, limitando o crescimento consciente.
Como evitar cair no autoengano?
A principal estratégia é praticar a auto-observação constante, manter o hábito do autoquestionamento e cultivar relações nas quais possamos receber feedbacks honestos e construtivos. Exercícios de escrita, meditação e análise crítica das próprias crenças são muito úteis neste processo.
